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REVISTA BIZZ HEAVY - ED.01

A VOLTA

Nos anos 70 não havia banda de heavy metal que chegasse aos pés da popularidade do Aerosmith nos Estados Unidos. Eles eram tudo aquilo que os Stones haviam sido! Pesados, violentos e muito perigosos. E tinham Steve Tyler, com mais cara de Mick do que o próprio Jagger e muitas vezes mais sacana.

 

Os Stones do heavy metal! Os Stones que os Stones não tiveram coragem de ser! A nave metaleira que se recusa a capitular à idade e às mudanças de mercado!


Todas estas micromanchetes caberiam bem ao Aerosmith, a banda norte-americana de heavy metal mais bem-sucedida de todos os tempos, recentemente despertada após longa hibernação para descobrir que seu espaço havia sido preservado no coração dos mais fiéis fãs.


Com quase duas décadas de carreira, o Aerosmith renasceu comercialmente e se miscigenou, trocando figurinhas com bandas de hip-hop e arrombando a festa na MTV. O segredo desta vitalidade? Muito metal, muito rock. E muita teimosia.


O Aerosmith criou um precedente na história do rock americano quando virou o primeiro grupo hard a se tomar best-seller, atingindo a marca de platina normalmente reservada a músicas e grupos mais acessíveis. Na raiz de tudo está Steve Tyler, que morava a meio caminho de Nova York e Boston, em Yonkers. Lá, aos 14 anos, ele conheceu seu primeiro escândalo ao ser expulso do colégio junto com outros colegas por consumo de saladas de plantas alucinógenas (!??!). Numa de suas fugas para Nova York cruzou com o guitarrista Joe Perry e o baixista Tom Hamilton, fundadores de um obscuro grupo de New Hampshire, a Jam Band. Tyler, que até então tinha uma boa experiência como baterista (chegou até a gravar compactos com uma banda chamada Chain Reaction), foi persuadido pelos dois a assumir o posto vocal. Para completar o grupo foram chamados o baterista Joey Kramer e o guitarrista Raymond Tobano.


O quinteto se tornou Aerosmith lá pelos idos de 69, e no ano seguinte Raymond saiu e foi substituído por Brad Whitford. No final do ano todos trocaram a Big Apple (Nova York) por Boston, onde, pouco a pouco, constituíram um sólido batalhão de fãs e encontraram seu primeiro empresário, Frank Connelly.


No início de 72, uma apresentação fantástica, abrindo para o Humble Pie, tomou-se a catapulta para uma série de shows no famoso Max´s Kansas City, local onde todas as grandes bandas americanas desfilaram nos anos 60 e 70. Lá a banda seria notada pela famosa dupla de empresários Lebber & Krebs (New York Dolls, Boston, Ted Nugent, AC/DC e outros), que rapidamente descolaria um contrato com a CBS. Em duas semanas foi gravado o primeiro LP, numa produção bastante limitada e com um som de banda de garagem. Mas a CBS não gostou do resultado final e deu uma gelada no grupo. O que não o impediu de conseguir mais seguidores com turnês extensivas durante 73, abrindo para grupos como Mahavishnu Orchestra, Kinks e Mott the Hoople.


No ano seguinte surgiu finalmente o produtor que conseguiria canalizar no vinil toda a energia do quinteto: Jack Douglas, ex-assistente de Bob Ezrin (Alice Cooper, Lou Reed e, mais tarde, John Lennon). Jack supervisionou as gravações do disco seguinte - Get Your Wings - e boa parte dos demais. Já tendendo mais para o rock pesado, o novo disco deixava clara uma assimilação de influências, como Rolling Stones e o Yardbyrds. Só que a crítica "assimilou" demais essa equação Stones + Jagger + Richard = Aerosmith + Tyler + Perry". "Isso nos poderia ter condenado", disse Perry na época, acharem que somos apenas uma cópia dos Stones. Mas conseguimos, apesar disso, nossa própria identidade." Realmente, a dupla principal - Tyler e Perry - tinha uma certa semelhança física com Jagger e Richard. Mas o som do Aerosmith tinha, sem dúvida, mais energia e violência.


Em 75 saiu o terceiro álbum, Toys In The Attic, e finalmente chegaram os louros da fama: um milhão e meio de cópias vendidas.


No vácuo desse sucesso, todos os concertos de sua primeira loja como grupo principal tiveram lotação esgotada. Muita gente achava, então, que o grupo não conseguiria criar novos e melhores sucessos. No entanto, no ano seguinte saiu Rocks, uma verdadeira preciosidade, um dos álbuns fundamentais para a história da pauleira mundial.


O Aerosmith, então, se transformou no grupo do ano em 1976, trazendo ao seu show em Anaheim mais de 80 mil pessoas. Abrindo para Tyler e sua banda, ninguém menos que Jeff Beck!


A essa altura, o grupo preservava sua imagem com uma vigilância ditatorial, confiscando nas entradas dos concertos gravadores e máquinas fotográficas e lascando processos naqueles que vendessem camisetas e coisas do género sem autorização. Mesmo assim, alguns discos piratas surgiam no mercado. Para combater tudo isso o grupo lançou Live Bootleg, álbum duplo, ao vivo, contendo seus maiores sucessos. Entre eles, duas músicas gravadas por jovens pirateadores.


O sucesso começou a erodir a amizade desses Glimmer Twins do hard-rock. E em 1979 Joe decidiu lançar um disco solo. Para isso formou o Joe Perry Project.


Para seu lugar o Aerosmith chamou Richard Supa e mais tarde, para a excursão de 80, Jimmy Crespo (ex-Flame). No ano seguinte Brad deixaria a guitarra ritmo para Rick Dufay.


Já no final de 1984 Tyler e Perry fizeram as pazes e reformaram a banda. Com essa decisão, chamaram de volta Brad Whitford e caíram na estrada para verificar se o velho magnetismo ainda funcionava. Inicialmente tocaram em pequenos locais, usando alguns apelidos como Ray Coe & The Seat Covers. Aproveitaram, também, para dispensar seus antigos empresários Lebber & Krebs, trocando-os por Collins Barrasco. A separação não foi amigável: os "dispensados" reclamam dois milhões de dólares junto à justiça, por ruptura de contrato. Pouco depois trocaram também de gravadora e mudaram-se para a Geffen Records, Finalmente reentrosados, lançaram no início de 86 o álbum Done With Mirrors, com produção de Ted Templeman (Van Halen, David Lee Roth) e digno de seus melhores momentos. Nele retomam um tema do primeiro LP solo de Perry, "Let the Music Do the Talking". A CBS, por sua vez, aproveitou a deixa para lançar uma coletânea ao vivo, Classics Live, coisa arrumada pelos dispensados Lebber & Krebs. A etapa seguinte foi a nova megaturnê pelos EUA, junto com Ted Nugent, mais apresentações no Japão, em setembro. E, como sempre, a dupla está aprontando: aceitou um convite dos reis do hip-hop, o grupo nova-iorquino de rap Run-D.M.C., para uma regravação de "Walk this Way" (do LP Toys in the Attic). Só por essa presença, Tyler e Perry receberam 8 mil dólares. Em abril já haviam estreado em vídeo com o clip-bootleg Let the Music Do the Talking, feito artesanalmente com câmeras de 8 mm.


É preciso de tudo para sobreviver nos tempos atuais, o que todos esperam que aconteça. A banda, que desde 1973 movimentou 8 milhões de discos, está de volta para recuperar seu lugar, enfrentando grupos novos, como Ratt e Mötley Crüe. "Eu comecei algo grande e estou muito orgulhoso disso", diz Perry. "Se me copiam é porque estava certo. Porém, continuarei 'vestindo' essa idéia porque a visto melhor".

Matéria publicada na revista brasileira Bizz Heavy nº01, de Outubro de 1986.