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REVISTA BIZZ - ED.64

A MONSTERS OF ROCK

Ao sairmos de Londres, a chuva está pesada. Mas quando chegamos em Donington o céu está azul e o dia está quente. Este ano, nada das tradicionais brigas na lama. Os organizadores respiram aliviados, pois o festival deste ano é um teste. O último, em 88, foi um triste evento que culminou com a morte de dois espectadores durante o show dos Guns N´Roses e levou ao cancelamento do festival em 89.


Monsters of Rock 90 marca não só um dos festivais mais tranqüilos de sua história - este é o décimo - como também um dos mais irrelevantes, em termos musicais: três candidatos a monstrinhos, dois dinossauros, e 72.500 pessoas cujo consumo de cerveja destruiu seu senso crítico.


Os jornalistas passam o dia correndo entre os bastidores e a frente do palco. Os bastidores é que fornecem a diversão: diversas "tendas de hospitalidade" - a da EMI é um castelinho, com dois cavaleiros medievais na porta - e algumas celebridades: membros do Wolfsbane e Almighty, Blackie Lawless do WASP - o homem mais feio do rock - e até o Dread Zeppelin. Quando Joe Perry e Steve Tyler aparecem, são logo cercados, Steve Vai é quem causa maior sensação, andando em direção à tenda da MTV.


Voltando ao palco... As duas da tarde o Thunder inicia seu set. Para uma banda nova como eles, com o LP Backstreet Symphony (produzido por Andy Taylor, ex- DuranDuran) recém-lançado, Donington é um passo importante, e eles o aproveitam bem. Apesar de seu metal aguado, o público parece adorar, por exemplo, o blues pouco sincero de "Don´t Wait For Me" e o refrão horroroso da "Backstreet Symphony".


Os Quireboys chegam com tudo: o cantor Spike, com sua voz à la Rod Stewart, já deve ter tomado umas antes de subir ao palco. O resto do mundo pode ter entrado nos anos 90, mas aqui ainda não saímos dos 70. Apesar de se darem muito melhor tocando em bares, os Quireboys se saem bem com "Sex Party", "7 O´clock" e, entre outras, a balada "I Don´t Love You Anymore", que leva milhares de pessoas a acenarem com seus lenços de caveira nas mãos.


Nunca esperei muito do Poison, mas ainda assim eles decepcionam. Com seus cabelos coloridos e bronzeado californiano, eles pulam de lá para cá, entretêm o público com o hit "Unskinny Bop" e fazem as menininhas gritarem. Só um problema: eles não sabem tocar!


A grande esperança do Monsters of Rock é o Aerosmith, ressuscitado graças ao LP Pump. Dizem as más línguas que Mr. Coverdale, com medo da competição, exigiu que o volume permanecesse baixo para as quatro primeiras bandas. E realmente o som está péssimo. Mesmo assim, comparando o Aerosmith com as bandas anteriores... o Thunder, Quireboys e Poison que me perdoem, mas eles têm muito a aprender. Steve Tyler e Joe Perry, os Toxic Twins, sabem se mexer num palco como ninguém, e a platéia delira com "Young Lust", "Rag Doll", "Dude Looks Like A Lady", "Janie´s Got A Gun", "Love In An Elevator" e tal. Para o bis, eles trazem consigo Jimmy Page. A rivalidade entre o Aerosmith e o Zeppelin esquecida, tocam "The Train Kept A´Rolling", velho hit dos Yardbirds. Para terminar rola "Walk This Way", é claro.


O Whitesnake sobe ao palco assim que o sol se põe. David Coverdale, o maior ego do planeta, fala com o público usando sua melhor imitação do sotaque "classe trabalhadora inglesa", e todo mundo esquece que vamos voltar para casa de ônibus e ele de helicóptero. O simbolismo óbvio da minhoca - ôps - cobra branca de Coverdale está sempre presente: "Slide It In", "Cheap N´ Nasty", "Kitten´s Got Claws" (solo fantástico de Steve Vai!). Há também as baladonas, tipo "Is This Love", "Now You´re Mine" etc. Somos obrigados a agüentar um solo de guitarra interminável de Adrian Vandenberg, um solo de bateria e, finalmente, chega a vez de Steve Vai, que toca "The Audience Is Listening", de seu álbum solo. O que Steve Vai está fazendo tocando com Whitesnake é um mistério. Estou pensando no desperdício quando Coverdale pergunta: "Há alguma gatinha na platéia?" Não, querido, mas os seguranças têm alguns cães ferozes, se você estiver interessado... E aí tudo termina com os melhores fogos de artifício que já vi.

Resenha publicada na revista brasileira Bizz nº64, de Novembro de 1990.