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REVISTA BIZZ - ED.94

CONTROLE TOTAL

"Espero que a gente consiga mudar a sociedade, educando as pessoas desde cedo a respeito das questões sexuais e dos perigos das drogas."


O músico faz uma pausa para observar o trânsito de fim de tarde se acumulando em Sunset Strip. "A sociedade está repleta de cínicos", ele continua, "que sabem o preço de tudo e o custo de nada. Só espero que a mudança seja para melhor."


Quem mistura frases de estadista com filosofia de botequim nessa tarde de inverno em West Hollywood é Steven Tyler, compositor, cantor e símbolo sexual do Aerosmith. Um quinteto de Boston que sobreviveu aos rigores da estrada, a uma fase inicial sob a sombra dos Rolling Stones e a seu próprio apetite por destruição.


Hoje, quase um quarto de século depois de sua formação, o Aerosmith vale quarenta milhões de dólares na bolsa de cachês fonográficos - o valor pago pelo grupo Sony para tirar a banda do elenco da gravadora Geffen.


Aos 45 anos, Tyler é apenas um ano mais moço que o novo presidente americano, mas - sobre a sabedoria da cabeça e do corpo que já foram bem rodados - tem o entusiasmo e a atitude de um adolescente.


É uma visão por vezes paradoxal participar de uma conversa com Tyler. Os vincos profundos no rosto contrastando com os cabelos tingidos de castanho, as caras e bocas, os gritinhos ocasionais, os anéis nos dedões das mãos, as sapatilhas de polichinelo, tudo cheira levemente a Spinal Tap - a banda inglesa de mentirinha criada no cinema para satirizar os grupos de rock que se dão importância demais.


Mas a vitalidade que gerou clássicos do rock dos anos 70, como "Dream On", "Back In The Saddle", "Toys In The Attic" e "Walk This Way", claramente ainda reside em Tyler. E Steven, ademais, não se leva muito a sério - você precisa ver Steven Tyler imitando Steven Tyler para acreditar nisso.


Hoje, Bill Clinton está apresentando seus planos para mudar os EUA. Enquanto isso, Steven está passando o dia nos escritórios da Geffen, dando entrevistas para divulgar Get A Grip, o penúltimo álbum do Aerosmith para a gravadora antes de se mudar de vez para a Sony. E o começo do fim da associação da banda com a Geffen, que patrocinou o "renascimento" do grupo - a volta à ativa e ao topo das paradas, depois de uma fase sombria de desentendimentos, mera falta de inspiração e exageros etílicos e químicos. Não foi à toa que Tyler e o guitarrista Joe Perry se apelidaram de Toxic Twins, autogozação com o pseudônimo como produtores de Jagger e Richards, Glimmer Twins.


Agora, faltando apenas mais um álbum para cumprir o contrato com a Geffen, começa uma nova fase para a banda. Compreendamos, portanto, a "filosofagem" de Tyler. Sua cabeça está ligada na mudança. O Aerosmith de hoje é a Fênix de suas próprias cinzas. Como a América de Clinton, o grupo está se reconstruindo.


"Passamos por um... desnível", ele amortece. "Mas reencontramos nossa essência básica. Hoje, somos muito diferentes do que éramos no começo. Dizer ´foda-se!´ um para o outro, não funciona mais. Não damos mais bola para um monte de bobagem que pode atrapalhar a vida da gente - ou então, atacamos o problema assim que ele surge. E isso só nos fortalece."


"Estou certo de que seria capaz de lançar um disco solo amanhã, se quisesse. Mas ainda gosto de foder com a cabeça de Joe Perry."


Get A Grip é o estágio mais recente deste coito mental. E, pelo que Tyler conta, foi o disco mais difícil de se fazer de toda a carreira da banda. Para que Get A Grip ficasse pronto e a contento de todos, a banda teve de compor e gravar o equivalente a dois álbuns.


"Compusemos um monte de canções", ele recorda, falando das sessões de gravação com seu tradicional produtor, Bruce Fairburp, nos estúdios da A&M, em Los Angeles, "e não eram más." Ele silencia temporariamente. "Eram boas canções, politicamente - abre aspas e fecha aspas - corretas, mas precisávamos de algo mais arriscado, algo mais profundo. Sabíamos que o disco ainda não estava pronto."


"Curiosamente, nosso produtor estava pronto para lançar aquele disco, embora Joe e eu desejássemos ter um pouco mais de tempo para continuar trabalhando nele. Até que, durante uma audição no departamento artístico da Geffen, percebemos que (ele pára e não encerra a frase)... e pedimos mais três meses. Eles toparam."


Em questão de horas, Tyler estava com Joe no porão da casa de Perry, compondo novas músicas, parindo o material que, enfim, iria para o novo álbum. "Amazing", prima-irmã de "Dream On", soa quase como se Tyler estivesse sendo acompanhado pelos Moody Blues; "Walk On Down", é uma das raras ocasiões onde Joe canta o vocal principal; a instrumental "Boogie Man", trata-se de um "acidente" de estúdio que, apesar do título, não tem nada de previsível. Há ainda a "épica" e progressiva" "Livin´ On The Edge" e a balada pesada regulamentar, "Cryin´".


"Por outro lado", diz Steven, "tem muita coisa boa daquelas sessões da A&M que ficou de fora e que esperamos usar algum dia - "Dimestore Lover", "Black Cherry", "Meltdown", umas cinco músicas que ainda não estavam prontas." Ele pára antes de recomeçar a falar. "Às vezes penso que, quanto mais sangue você derrama no estúdio, melhor fica o disco. Se for assim, este é o melhor de nossa carreira."


Há quem diga que a história toda não foi bem assim como Tyler romantiza. Em vez de a banda ter perdido mais tempo para gravar um disco melhor, a própria gravadora teria rejeitado a primeira leva de canções e exigido que o Aerosmith recomeçasse tudo, do zero, insatisfeita com a qualidade do "primeiro" disco.


Faz sentido, a teoria: gravar discos nas coxas, só para se livrar de um contrato, é tradição no rock - que o digam Mick Jagger e seu infame "Cocksucker Blues". Só que, dessa vez, a gravadora teria contra-atacado.


"Chegamos a pensar nisso", admite Steven, "consideramos a possibilidade de fazer um disco ruim, mas isso seria... ignorante, inescrupuloso. E os fãs do Aerosmith? Eles não têm a obrigação de entender que estavam comprando um ato de agressão a uma gravadora. Para eles, o disco seria apenas uma merda!"


"É uma questão de peixes graúdos e peixes miúdos", filosofa Tyler de novo. "Muitas vezes, somos apenas os peixes miúdos, os caras que compõem as músicas. E tem um monte de peixes graúdos nadando ao nosso redor, só sacando, ligados no fato de que estava para expirar nosso contrato com a Geffen. A CBS, do grupo Sony, foi uma delas. São nossos velhos amigos. E o pavio já estava aceso: toda vez que saía um disco nosso pela Geffen, a CBS vendia mais uns dois milhões de discos de nosso antigo catálogo."


"Isso tudo é a banda indo adiante, caminhando para a frente. A vida é uma jornada, não um ponto de chegada", conclui Steven Tyler - com a derradeira frase de efeito daquela tarde.

Matéria publicada na revista brasileira Bizz nº94, de Maio de 1993.