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BOSTON GLOBE - 30/03/04

RAPISODIA DO BLUES

 

O Aerosmith volta às suas raízes e produz uma barulheira adorável com 'Honkin' on Bobo'.

 

Os fanáticos por Aerosmith finalmente podem erguer seus punhos em triunfo. Eles vêm esperando por esse álbum há anos. Eles assistiram aos que um dia foram os meninos maus de Boston tentarem desesperadamente se manter atuais tocando baladas melosas ao gosto da MTV e uma música intragável de Diane Warren.

Então é um alívio ver o Aerosmith retornando às suas raízes e gravando canções de Bo Diddley, Sonny Boy Williamson, Mississippi Fred McDowell e Fleetwood Mac novamente, como quando eles ainda eram uma banda de blues-rock.

Entretanto, a melhor coisa em "Honkin' on Bobo", que chega às lojas hoje, é que ele não soa datado.

O Aerosmith planejou fazer um álbum minimalista, com um som de blues de garagem, mas, em vez disso, aumentou o volume ao máximo e fez um disco de rock dinâmico e forte, que pode ser considerado um dos melhores trabalhos do grupo. O álbum incorpora o blues, mas não o idolatra ou o superprotege.

Enquanto o novo cd de blues de Eric Clapton, "Me and Mr. Johnson" é um comportado trabalho de um discípulo, o novo disco do Aerosmith é muito mais ousado e inconseqüente. É um disco do Aerosmith e não um disco de tributo -- o que dá muita diferença. Esse cd mostra que a banda não perdeu o fôlego -- eles ainda são os mesmos caras, a despeito dos milhões de dólares que agora têm, que costumavam tocar blues quando dividiam um apartamento na Avenida Commonwealth, muito antes de poderem pagar por mansões em South Shore.

Esse amor inato pelo blues faz de "Honkin' on Bobo" um álbum gostoso de se ouvir. A primeira música, "Road Runner", dá o tom, quando os guitarristas Joe Perry e Brad Whitford prestam uma homenagem entusiasmada a Diddley (os riffs poderosos de Perry soam como Eddie Van Halen improvisando no blues), e o vocalista Steven Tyler torna-se um selvagem cantando "I'm a road runner, honey, and you can't keep up with me. . . . Here's mud in your eye, eat my dust!"

As quatro primeiras canções alimentam uma festa de blues digna de um Led Zeppelin. Depois de "Road Runner" temos a maravilhosa "Shame Shame Shame" (com Tyler deixando escapar um choro que mostra com que paixão ele entrou no projeto), e então vem "Eyesight to the Blind" de Sonny Boy Williamson (sobre os encantos de uma certa amante) e "Baby Please Don't Go" de Big Joe Williams, que é tão boa quanto a versão considerada definitiva feita por Van Morrison and Them anos atrás.

As faixas têm um clima orgânico e despretensioso por terem sido gravadas nos estúdios caseiros de Perry, o Boneyard, e de Tyler, o Bryer Patch. Tyler e Perry parecem absurdamente felizes por terem conseguido cair fora do rock-para-alegrar-gravadora e dos top 40 da vida, enquanto o guitarrista rítmico Brad Whitford ("Ele é a chave desse disco", diz Tyler) também parece estar nas nuvens assim como o baixista Tom Hamilton e o baterista Joey Kramer.

Algumas músicas de blues-gospel são uma tentação -- "Back Back Train" (uma canção de Ry Cooder - com Tracy Bonham cantanto uma parte é la Bonnie Raitt emocionante) e "You Gotta Move", que os Stones também já gravaram. Além disso, Tyler está numa forma rara de se ver na toda-cheia-de-alma "Never Loved a Girl", uma adaptação masculina para o clássico "I Never Loved a Man (The Way I Love You)", de Aretha Franklin.

O Aerosmith ainda oferece uma inédita, "The Grind", uma canção sensível sobre um final de relação, antes de remodelarem "I'm Ready", de Willie Dixon (com Tyler impondo sua força de cultura de rua), "Temperature", de Little Walter (que tem a dureza de um ZZ Top e conta com a participação de Johnnie Johnson, pianista de Chuck Berry), e "Stop Messin' Around', do Fleetwood Mac, com Perry fazendo uma grande performance no vocal principal. O álbum termina com a climática "Jesus is on the Mainline", com vocais de coral, o que mostra o quão fundo o Aerosmith foi na pesquisa para realizar esse projeto memorável.

Resenha feita por Steve Morse e publicada no jornal americano The Boston Globe de 30 de Março de 2004.