NY DAILY NEWS - 14/04/04
BLUES IN A HARD PLACE
Aerosmith abandona baladas e volta ao básico.
Os caras do Aerosmith não querem que você tenha uma idéia errada.
Realmente, seu novo CD, "Honkin' On Bobo", que vai ser lançado Terça, é taxado como seu 1º álbum inteiramente de blues.
Mas o guitarrista Joe Perry enfatiza, "Nós não estamos aí para educar as pessoas no blues. Não somos soldados de uma cruzada do blues e não somos uma banda de blues."
"Nós sabemos que todos (os críticos) estão apenas esperando para dizer 'Isso não soa como um álbum de blues'," diz o cantor Steven Tyler, imitando um tom repugnante.
Ao menos, não soa como um álbum de blues tradicional. Certamente, ninguém vai confundir "Bobo" com um álbum de Robert Johnson, Son House, ou até mesmo com uma dessas homenagens sérias a gêneros musicais recentemente lançadas por Eric Clapton e John Mellencamp.
Ao invés disso, "Bobo" é baseado na reinterpretação britânica do blues americano dos anos 60 por bandas como Rolling Stones, Fleetwood Mac e Yardbirds. É um golpe de hard rock de um CD que trata o blues como música festiva ao invés de toda aquela história de lenda inspiradora.
Em outras palavras, é um disco do Aerosmith. Ou, ao invés disso, um disco do Aerosmith dos anos 70. De fato, o aspecto mais excitante de "Bobo" não são suas raízes do blues, mas o fato de que ele não conta com nenhuma balada, nenhuma melodia pop e nenhum dos arranjos orquestrais que têm caracterizado a música comercial do Aerosmith nos últimos 17 anos.
É o álbum mais hard rock da banda desde seu disco de 1985 "Done With Mirrors", o CD produzido logo antes de sua ressureição nas paradas musicais.
Surpreendentemente, Perry diz que a idéia de um disco de blues originou-se com o Presidente da Columbia Records Don Ienner em 1996, logo depois que ele atraiu a banda de volta à gravadora que os havia lançado nos anos 70. (Nesse meio tempo, a banda ficou mais de uma década com a Geffen Records).
O grupo queria começar seu novo contrato com algo mais atraente para as rádios. Então a idéia dos blues foi colocada na geladeira enquanto o Aerosmith lançava álbuns super-produzidos como o "Nine Lives" de 1997 e o "Just Push Play" de 2001.
Mas no ano passado, a banda encontrou-se com uma janela de 3 meses de oportunidade antes que fosse marcado para começar uma enorme turnê com o Kiss. Veio a calhar que seu produtor dos anos 70, Jack Douglas, estava livre também. A idéia em comum era gravar a banda como uma unidade bem-estruturada ao vivo, como nos velhos tempos, ao invés de passar pelo processo pop de ter cada um gravando suas partes separadamente. A meta era dar ênfase ao sentimento ao invés da técnica.
"A única hora em que captamos isso é quando tocamos ao vivo," diz Perry. "Esse era nosso objetivo, ter isso novamente em um disco. É disso que os fãs têm sentido falta."
O grupo tinha alguns modelos em seus álbuns anteriores, incluindo sua versão do blues antigo "Train Kept a Rollin'" de seu 2º disco, de 1974.
Em "Bobo" (o significado do termo no blues foi perdido na história) a banda entusiama com músicas como "Road Runner" de Bo Diddley, "Eyesight to the Blind" de Sonny Boy Williamson e "I'm Ready" de Willie Dixon. A banda mergulhou em tais obras em 1970.
Mudança de Gênero
Por mais familiar que seu repertório possa ser, o Aerosmith promove algumas mudanças. O grupo toca "You Gotta Move" de Mississipi Fred McDowell - mais conhecida em sua versão feita pelos Rolling Stones para "Sticky Fingers" - mas adiciona alguns acordes e um ritmo à la Bo Diddley.
"Nós estávamos determinados a fazê-la da nossa maneira," diz Tyler. "Fizemos de um modo mais particular."
A banda pega uma tarefa ainda mais desafiadora para regravar o estandarte do R&B "Never Loved a Man", tornada um clássico na voz de Aretha Franklin. Mudando o gênero, Tyler se sai bem na canção.
Eu adoro músicas que evoluem dessa forma," ele diz. "Ela muda e deixa apenas os vocais se sobressaírem."
Perry cantou mais do que o normal - em 2 músicas.
"Eu estou apenas começando a descobrir minha voz," diz o guitarrista de 53 anos. "Acho que é uma evolução tardia."
Da mesma forma, o Aerosmith passou a fazer pop apenas mais recentemente. Alguns fãs de longa data ainda consideram seus hits dos anos 80 e 90 como sendo comerciais. Perry compreende o fato.
"Se você me dissesse, quando eu tinha 19 ou 20 anos, que nós faríamos músicas como 'Dude (Looks Like a Lady)' ou 'I Don't Want To Miss a Thing', eu teria dito, 'Eu não, cara - não a minha banda'," ele diz. "Mas com o passar do tempo você percebe que está lá para divertir, e mesmo que você pense que isso é meloso demais ou não, você não pode discutir com um hit nº1."
Tyler concorda: "Quando eu canto 'I Don't Want To Miss a Thing', o público urra e todos cantam junto e eu tenho essa sensação incrível em meu coração - e na minha virilha."
O cantor admite que ele quer que o máximo possível de pessoas gostem da banda e que ele é "viciado em turnês."
Mas Perry diz que se "Bobo" vender bem, a banda pode se inclinar mais para o hard rock novamente.
"Eu estou de dedos cruzados para que consigamos converter algumas pessoas que não têm comprado nenhum disco do Aerosmith há muito tempo," ele diz. "Então vamos ver para onde isso vai nos levar."
Matéria escrita por Jim Farber e publicada no jornal americando NY Daily News de
14 de Abril de 2004.












