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GLOBO - 25/05/04

AEROSMITH REUNE 2 GENEROS MUITO AMERICANOS

Fundado em 1970, em Boston, o Aerosmith é uma das bandas que melhor sobreviveram aos excessos dos anos 70, à chegada da MTV, à explosão alternativa dos anos 90 e às tendências que vão e vêm, sempre produzindo e mantendo seu público. Nos últimos anos, no entanto, a banda tem recorrido a outros compositores, como Marti Frederiksen e Diane Warren (autora da melosa balada "I don’t wanna miss a thing"), para completar o repertório de seus discos. Mau sinal. Para piorar, o Aerosmith, responsável por uma das mais belas baladas do rock, "Dream on", andava muito repetitivo em suas músicas românticas: era um tal de "Jaded", "Fly away from here", "Hole in my soul", todas parecidas, com o cantor Steven Tyler, cujo estilo já é um tanto chorão, parecendo mais um bebê do que um roqueiro cinqüentão.

Banda reuniu 40 músicas, para chegar às 12 do CD

É nessa hora que uma banda deve olhar suas raízes, e aí o Aerosmith teve a inteligência de não tentar copiar a si mesmo: a banda foi buscar as origens de seu rock calcado nos Rolling Stones, e gravou "Honkin’ on bobo", um disco de clássicos do blues interpretados com a pegada roqueira de Tyler, do guitarrista Joe Perry e seus companheiros.

- Era um projeto antigo, que nunca tínhamos tempo de realizar - lembra Perry, o mais radical blueseiro da banda. - Como desta vez não tínhamos tempo para compor e gravar um disco de carreira, a idéia ressurgiu e fizemos o disco.

Ele foi o principal responsável pela seleção do repertório.

- Foi um suplício - confessa. - Passei dois anos selecionando as músicas e consegui chegar à menor lista possível, que tinha 40 músicas. A banda toda ouviu o repertório e conseguimos reduzi-lo a 20 canções. Pensamos muito em representar correntes diferentes do blues, como o mais rural, do Delta do Mississippi, o mais urbano, de Chicago, e o próximo do soul , de cantoras importantes como Aretha Franklin e Etta James.

Ao contrário de velhos blueseiros como B.B. King, Perry não se sente responsável pela preservação do blues.

- É natural que, com esse disco, mais jovens queiram saber quem foram Howlin' Wolf, Willie Dixon ou Robert Johnson - acredita. - Mas o blues não precisa de salvação, ele sempre estará por aí. Volta e meia conheço músicos jovens, como o guitarrista Johnny Lang, que o levam adiante.

O mais divertido de tudo, segundo ele, é tocar o novo repertório ao vivo.

- Nossas músicas, desde as mais antigas, como "Mama kin", até as recentes, como "I don't wanna miss a thing", soam perfeitas ao lado de blues como "Stop messin' around" e "Baby, please don’t go" - avalia. - Estamos nos divertindo muito, e eu até canto algumas músicas no show, como "Back Back Train".

A última turnê do Aerosmith, antes do lançamento de "Honkin' on bobo" (o nome, segundo Perry, é de "uma antiga expressão do jazz sobre algo ligado a um saxofone", ou seja, ninguém sabe), foi ao lado de outro dinossauro dos anos 70, o Kiss. Ele gostou.

- Aquilo foi um circo - define. - Todos nos conhecemos há muitos anos, então era uma reunião de velhos amigos. Os fãs também pareciam felizes. Acho que muita gente que ia ver apenas uma das bandas acabou gostando da outra.

"Havia uma conversa de voltarmos à América do Sul"

Ele confirma que o Aerosmith fechava o show todas as noites, mas é elegante ao explicar o motivo da estratégia.

- A produção do Kiss é grande demais, tudo tem que ser desmontado e seguir para a próxima cidade logo - diz. - Mas era uma turnê com duas atrações principais.

Falando em turnê, ele confessa que está de olho nas férias, marcadas para julho.

- Estamos há anos trabalhando sem parar - diz. - Preciso de pelo menos um ano de descanso, para ficar de roupão na minha fazenda e cuidar dos meus cavalos.

Mas peraí, o Aerosmith não tinha um show marcado no Rio em setembro, na Cidade do Rock, com o Linkin Park?

- Eu sei que em julho paramos tudo - diz ele. - Havia uma conversa de voltarmos à América do Sul, o que seria ótimo, mas não sei se está confirmado. Pensando no assunto hoje fico com uma certa preguiça, mas tenho certeza que será ótimo, se acontecer.

 

 

 

Matéria escrita por Bernardo Araujo e publicada no jornal brasileiro O Globo do dia 29 de Maio de 2004.