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BOSTON HERALD - 23/06/04

TALK THIS WAY STEVEN TYLER DO AEROSMITH FALA SOBRE PROBLEMAS NA GARGANTA, POPS E KERRY

Voltando do dentista, com a boca cheia de Novocaína, recebo uma mensagem. Steven Tyler quer fazer nossa entrevista. Nesse exato momento.

"Que horas você foi ao dentista?" pergunta Tyler quando eu explico porque estou falando de forma engraçada. "Por 50 dólares, que horas você foi ao dentista? Pense nisso."

"Ahn, eram 3 da tarde."

"Errado!", Tyler manda. "Era a hora da dor de dente."

Eu dou uma resmungada. Ele dá uma gargalhada com gosto.

Na verdade eu estou surpreso que o líder do Aerosmith esteja podendo falar, e ainda por cima livre para contar piadas horríveis. O problema na garganta de Tyler forçou a maior banda de Boston a cancelar alguns shows na semana passada.

Mas você não tem com o que se preocupar. Tyler, de 56 anos, está de volta à ativa e o show de amanhã com o Cheap Trick no Tweeter Center está confirmado.

E você não tem de se preocupar comigo tentando conversar com ele com a língua toda anestesiada. Uma vez que Tyler, falando por telefone de sua casa em South Shore, começa a falar, não é preciso que se puxe mais assunto. Ele vai falando, falando, sem parar.

- Então, Steven, como que foi a história da garganta?

"Simples. Estamos em turnê há 5, 6, 7 meses. Se você pega um resfriado, como é que você canta resfriado? Eu tive de descansar. Por outro lado, há remédios que se você tomar, dá pra dar conta do recado no show, mas no dia seguinte você paga caro por isso. Eu tomei alguns esteróides duas semanas atrás e tivemos de cancelar um show por causa disso. Aí semana passada fomos pra Buffalo, onde fazia 40 graus no palco. Era tudo que eu precisava. Na manhã seguinte eu acordei com laringite. Os médicos me mandaram descansar, então tivemos de cancelar alguns shows.

Mas, sabe, isso é rock 'n' roll. Não é como você ganha ou perde, é como você arruma seu cabelo. Ha! De toda forma, eu sôo como se estivesse fazendo gargarejo com um monte de lâminas mesmo. Minha garganta está melhor agora, mas eu não estava falando até esta entrevista. Então se a minha voz sumir de novo, a culpa é toda sua. Não, na verdade eu estive bem o dia inteiro hoje. Eu saí e comprei uma bicicleta pro meu filho, e comprei um trapo tenha-um-coração porque tem três raposas na nossa soleira."

- O show do Aerosmith no Esplanade no dia 4 de Julho com o Boston Pops foi cancelado. O que deu errado?

"Estou extremamente desapontado por nós não podermos fazer isso. Eu achei que seria legal. Eu entrei de cabeça nisso. Eu arranjei toda a música para 'I Don't Want To Miss A Thing', tudinho para uma orquestra de 114 músicos. Eu fui e me esgueirei com aquilo para surpreendê-los para que eles pudessem usar a canção. E nós faríamos 'Dream On'.

Mas quando você olha para o que era necessário, era um dia de ensaio e depois um dia inteiro de show. Estamos na estrada há cinco meses. O que você diz quando olha nos olhos da sua filha de 14 anos e ela diz, 'Papai, você vem na minha formatura?' Há tão poucos dias. Esse é o problema. Realmente não havia tempo suficiente. Talvez no ano que vem. Acho que Keith Lockhart não vai guardar nenhuma mágoa."

- O outro grande evento de Julho é a Convenção Nacional dos Democratas. O Aerosmith vai se tornar político?

"John (Kerry) e eu somos bons amigos. Eu converso muito com ele. Infelizmente temos show no dia da convenção. Ele perguntou se poderíamos tocar. Eu disse que se ele for eleito presidente, tocaremos no dia de sua posse.

Cada cara (no Aerosmith) tem opinião diferente. Acho que todos os presidentes têm uma fraqueza. Eles tentam fazer o máximo que podem mas favorecendo o próprio ego. Eles dizem 'para o povo' e 'do povo', mas não é sempre assim. É para o próprio estrelismo.

John Kerry é um tipo de cara diferente. Quando você fala com ele, você sente que está conversando com um sujeito com muita experiência. Ele te olha diretamente nos olhos. Ele passa muita confiança. Eu sou um grande fã de Kerry... Mas, ei, que grande álbum de blues, não?"

- Boa transição, Steven. Eu ia te perguntar sobre 'Honkin' on Bobo'. Você diria que é uma homenagem dupla, tanto para os bluesmen negros americanos quanto para os brancos ingleses das bandas de blues-rock que influenciaram o Aerosmith no início da carreira?

"Sim. Começamos fazendo um disco minimalista. Aí paramos na metade e dissemos, 'Temos de colocar um pouco mais do que o Aerosmith é hoje, assim como do que ouvíamos nos primeiros dias.' Nossa, cara, 'Lost Woman', dos Yardbirds. Muito louco. Chapava a gente. Aquilo simplesmente realçou nosso traço. Tocar aquilo foi o nosso chamado."

- Vocês continuam seguindo aquele chamado. A turnê do Aerosmith termina no Japão no mês que vem. Daí vem o quê?

"Eu vou tirar um ano de férias. A banda nunca fez isso. Tiramos um ano para fazer um disco, mas estamos pensando em tirar um ano para não fazer nada. Mas tenho certeza de que no sétimo ou oitavo mês vou ligar pro Joe (Perry) e dizer, 'Eu vou perder o meu cérebro. Temos de fazer alguma coisa.' É assim que acontece. Ainda temos um monte de música boa dentro de nós."

 

 

 

Entrevista feita por Larry Katz e publicada no jornal americano Boston Herald de 23 de Junho de 2004.